De herança bilionária ao colapso: como esquemas de corrupção e redes sociais devastaram Macapá

Entre malas de dinheiro, fraudes na saúde e desvios para milícias digitais, Antônio Furlan deixou um rombo milionário na PMM e já revelou, em entrevistas, a intenção de aplicar no estado o mesmo modelo caso seja eleito governador do Amapá



Em março de 2026, o médico e ex-prefeito Antônio Furlan (PSD) assinou sua carta de renúncia ao comando da Prefeitura de Macapá após ser sumariamente afastado por 60 dias pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, sob a mira da Operação Paroxismo da Polícia Federal, que investiga um vertiginoso esquema de propinas, fraudes licitatórias, desvios de R$ 25 milhões para milícias digitais e um rombo previdenciário de R$ 329,6 milhões, numa manobra desesperada para escapar da cassação e tentar viabilizar sua pré-candidatura ao Governo do Estado. O gesto melancólico selou a metamorfose de um ciclo político que começou sob o signo da bonança e desmoronou em meio a moedas de troca empacotadas em mochilas esportivas, convertendo a cena administrativa local em uma tragicomédia burocrática digna dos mais ácidos folhetins da vida pública brasileira.

A paisagem de Macapá, banhada pelas águas turvas do rio Amazonas e cortada ao meio pela linha imaginária do Equador, sempre teve na política um espetáculo quase teatral, de tintas carregadas e paixões ruidosas. Quando Clécio Luís passou o bastão do Palácio Laurindo Banha a Furlan, em janeiro de 2021, o enredo sugeria uma transição de estabilidade quase entediante. As contas da PMM descansavam em um raro prato limpo: o orçamento público pulara dos R$ 540 milhões registrados em 2013 para robustos R$ 1,28 bilhão — um salto orçamentário de 140% —, com salários em dia, cofres saneados e nada menos que 89 obras públicas em andamento ou com verbas devidamente carimbadas e asseguradas. Era o tipo de herança que permitia a qualquer gestor o luxo de planejar o futuro sem olhar o retrovisor, um cenário de estabilidade fiscal raras vezes visto no Norte do país.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Bastaram, contudo, cinco anos para que o verniz da prosperidade planejada trincasse sob o peso de práticas nada republicanas e escândalos em série, revelados em levantamentos detalhados do portal AMAZÔNIA VIA AMAPÁ. A crônica da derrocada ganhou contornos de enredo policial durante uma ação deflagrada pela Polícia Federal na capital amapaense. Agentes em campo monitoraram, em tempo real, um veículo do gabinete do chefe do Executivo municipal transportando nada menos que R$ 400 mil em dinheiro vivo, acondicionados em uma prosaica mochila. O flagrante em espécie serviu de estopim para a decretação do afastamento imediato do prefeito pela Suprema Corte, desnudando as entranhas de uma engrenagem que transformou a gestão da capital em um balcão de negócios escusos.

No coração das investigações federais repousa o contrato de R$ 69,3 milhões destinado às obras do Hospital Geral Municipal. O que deveria erguer uma estrutura sanitária crucial para a população carente transformou-se, segundo a PF, em um duto sofisticado de direcionamento de licitações, desvio de fundos e lavagem de dinheiro. O esquema envolvia Furlan, seu ex-vice-prefeito Mario Neto e um seleto grupo de empresários locais atrelados ao pagamento sistemático de propinas. Em um estado onde a saúde pública é questão de sobrevivência diária, o desvio de verbas hospitalares adquire a densidade moral de uma tragédia anunciada, onde o cinismo da gestão contrasta dolorosamente com as filas nas unidades de pronto atendimento.

A engrenagem de poder de Furlan, todavia, não se sustentava apenas no desvio de verbas da infraestrutura básica; demandava também a construção de uma realidade paralela pavimentada pelo marketing agressivo. Outra frente das apurações da PF revelou o desvio de R$ 25 milhões originalmente alocados na comunicação pública municipal. Em vez de prestar contas à sociedade ou divulgar campanhas educativas de interesse social, a dinheirama escorreu por contratos de publicidade institucional para alimentar o que os investigadores classificam como uma autêntica fábrica de desinformação. O montante irrigou contas de influenciadores digitais, veículos de comunicação alinhados e empresas de fachada incumbidas de operar ataques orquestrados a adversários, manipular narrativas e hipertrofiar a imagem do “prefeitão” — o apelido folclórico com que Furlan costumava se exibir para seus quase 280 mil seguidores no Instagram.

Enquanto a imagem digital do gestor reluzia nas telas dos smartphones com filtros de modernidade, os alicerces financeiros do município ruíam em ritmo acelerado. Uma auditoria divulgada em agosto de 2026 pelo Ministério da Previdência Social revelou um rombo assustador no MacapáPrev: aproximadamente R$ 329,6 milhões em repasses previdenciários foram simplesmente sonegados pela prefeitura durante os anos de gestão Furlan. Críticos e opositores apontam que o buraco no caixa do instituto compromete o futuro de gerações de servidores públicos municipais, que viram sua aposentadoria ser transformada em lastro para contabilidade criativa e desgoverno fiscal. É a clássica estética da ruína mascarada por confetes digitais, onde o espetáculo da autopromoção cobra seu preço no lombo do funcionalismo.

Pressionado pelo cerco judicial que se fechava a cada nova operação policial e pelo risco iminente de ter o mandato cassado pela Câmara Municipal — o que o tornaria inelegível pelas regras da Lei da Ficha Limpa —, Furlan optou pelo atalho táctico da renúncia voluntária. Ao se despedir do cargo sem alarde administrativo, gravou um vídeo apressado nas redes sociais para comunicar sua pré-candidatura ao Governo do Estado do Amapá. Trajando a habitual carcaça de vítima, esquivou-se de citar as operações policiais, as mochilas de dinheiro ou os contratos fraudados da saúde, preferindo classificar a devassa do Ministério Público e da PF como mero fruto de “ataques e perseguições políticas” movidos por desafetos enciumados do seu capital eleitoral.

O grande enigma que agora paira sobre o debate político amapaense é a perspectiva do que representaria a expansão desse modelo para a esfera estadual. Em entrevistas recentes, Furlan não escondeu a intenção de replicar no Governo do Estado o exato figurino administrativo testado em Macapá. Isso significaria importar em bloco o mesmo staff burocrático e político a que esteve umbilicalmente atrelado no Palácio Laurindo Banha — personagens que figuram, sem exceção, na extensa lista de investigados pela Polícia Federal sob suspeita de surrupiar verbas da saúde e da previdência da capital.

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A trajetória recente da política macapaense, observada sob essa lente crítica, evoca um ensaio sobre os perigos da estetização do poder público, onde a eficiência fiscal herdada é rapidamente consumida pelo apetite do fisiologismo e pela ilusão das redes sociais. Entre a contabilidade saneada deixada em 2021 e a apressada carta de renúncia entregue sob a sombra da PF em 2026, Furlan construiu uma crônica de excessos que agora tenta vender ao eleitorado como passaporte para o Palácio do Setentrião. Resta saber se o Estado do Amapá aceitará como projeto de futuro o mesmo enredo de cinzas e mochilas recheadas que devastou as finanças da sua própria capital.


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