Operação contra banco de Edir Macedo gera silêncio estratégico entre políticos da direita e esquerda

Investigação por fraudes financeiras expõe o pragmatismo político que une extremos ideológicos no ambiente digital. Esvaziamento do Congresso pelo São João e o receio de afugentar votos religiosos travam as reações de parlamentares sobre a operação da PF



A Polícia Federal deflagrou,, dia 23 de junho, uma operação contra o banco Digimais, controlado pelo pastor Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, provocando um silêncio generalizado nas redes sociais da classe política brasileira. O impacto da ação policial, que investiga suspeitas de fraudes financeiras na instituição, foi abafado tanto pela direita quanto pela esquerda em Brasília por uma combinação de conveniência eleitoral e esvaziamento do Congresso Nacional devido às festas juninas. Enquanto os parlamentares evangélicos e de direita buscam descolar a atividade religiosa e política de escândalos sob investigação, o governo e a esquerda adotam a cautela para não afugentar o eleitorado religioso, redesenhando suas estratégias digitais imediatas para focar em pautas econômicas de apelo popular, como a tramitação do fim da jornada de trabalho 6×1.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

O esvaziamento físico dos corredores do poder, provocado pelas tradicionais celebrações de São João — especialmente fortes entre as bases parlamentares do Nordeste —, serviu como uma cortina de fumaça natural para que deputados e senadores evitassem se posicionar publicamente. No entanto, o fenômeno mais expressivo ocorreu no ambiente digital, onde o silêncio estratégico revelou o tamanho do pragmatismo político que une extremos ideológicos quando o assunto envolve o império de Edir Macedo.

Para a bancada evangélica e os parlamentares alinhados à direita, o silêncio é uma barreira de proteção. O grupo busca evitar que o desgaste da operação contamine a imagem política do segmento, separando a liderança espiritual de Macedo dos problemas jurídicos enfrentados pelo banco Digimais. A ordem velada nas primeiras horas após a operação foi a de não emitir notas oficiais e evitar comentários em plataformas como o X e o Instagram, impedindo que a militância conservadora entrasse em uma dividida ideológica desfavorável.

Do outro lado do espectro político, o cálculo da esquerda e do Partido dos Trabalhadores é puramente pragmático e mira as próximas disputas nas urnas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma resistência histórica e persistente entre os fiéis evangélicos, um eleitorado crucial para a governabilidade e para a manutenção do projeto político petista. Críticas precoces ou ataques diretos ao fundador da Universal poderiam fechar canais de diálogo que o Palácio do Planalto tenta, a todo custo, reconstruir.

Mesmo no Rio de Janeiro, onde o cenário local apresenta uma disputa direta e simbólica, a cautela prevaleceu. O deputado federal Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo e fortemente ligado ao Republicanos, desponta como um forte concorrente ao Senado em uma disputa que envolve diretamente a petista Benedita da Silva, que também professa a fé evangélica. Apesar do potencial de exploração política do caso contra o adversário, a coordenação de campanha do PT optou por segurar os ataques digitais. Nenhuma diretriz foi enviada à militância para que o escândalo financeiro fosse transformado em munição de internet.

Em vez de focar as energias na denúncia contra o Digimais, a pré-campanha petista e seus aliados decidiram redirecionar o foco das redes sociais para a agenda legislativa e econômica. A prioridade máxima do dia transformou-se em uma cobrança pública sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para que ele libere a tramitação da proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da jornada de trabalho de seis dias por um de descanso. O entendimento estratégico é de que debater a escala 6×1 gera engajamento positivo e dialoga com a classe trabalhadora de forma ampla, incluindo os próprios evangélicos, sem o risco de criar atritos de ordem religiosa.

Oficialmente, a postura da esquerda foi resumida pelo coordenador do setorial inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, que defendeu o respeito estrito ao princípio constitucional da presunção de inocência. Segundo o dirigente, o partido entende que nenhuma instituição, seja ela pública, privada ou de caráter religioso, está imune à fiscalização ou acima da legislação vigente no país. Barbosa pontuou que eventuais irregularidades de gestão devem ser rigorosamente apuradas pelos órgãos competentes, mas ponderou que a expectativa do partido é de que as instituições democráticas sigam funcionando com normalidade, lamentando apenas que figuras públicas com relevância institucional e social se vejam envolvidas em investigações dessa natureza.

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