OPINIÃO

Entre as urnas e o Supremo, Amapá vive dilema

Apostando na lentidão dos ritos judiciários e na força do PSD, Antônio Furlan articula sucessão estadual sob a proteção da Lei da Ficha Limpa, enquanto tenta dissociar denúncias de corrupção de sua imagem

Antônio Furlan (PSD), ex-prefeito de Macapá e principal nome da oposição no Amapá, articula sua candidatura ao governo do estado para as eleições de 2026 mesmo após ter sido afastado do cargo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em março deste ano, sob graves suspeitas de peculato, corrupção e malversação de recursos públicos. A estratégia do político baseia-se na manutenção de seus direitos políticos, uma vez que não possui condenação por órgão colegiado, e em uma popularidade recorde que ignora os desdobramentos da Operação Paroxismo. Amparado pela Lei da Ficha Limpa e por uma narrativa de perseguição política, Furlan aproveitou o afastamento cautelar para renunciar e focar integralmente na pré-campanha, liderando as pesquisas de intenção de voto contra o atual governador Clécio Luís (União).
A trajetória de Furlan rumo ao Palácio do Setentrião ilustra um fenômeno comum na política brasileira, onde a eficiência administrativa percebida pelo eleitor muitas vezes se sobrepõe ao peso das investigações criminais. O ex-prefeito, que conquistou uma reeleição esmagadora em 2024 com 85% dos votos válidos, construiu um capital político baseado em obras de asfalto e revitalização urbana que criaram um forte laço de confiança com a população macapaense. Para o eleitorado, o impacto visual das transformações em Macapá parece falar mais alto do que os relatórios da Polícia Federal, gerando uma trincheira de aprovação que resiste ao bombardeio das manchetes policiais.
Juridicamente, o caminho de Furlan permanece livre devido aos ritos específicos da Justiça Eleitoral e do Direito Penal. A Lei da Ficha Limpa é clara: a inelegibilidade só ocorre com uma condenação em segunda instância ou por órgãos colegiados, o que ainda está longe de acontecer no caso da Operação Paroxismo. As investigações, embora robustas e autorizadas por instâncias superiores como o STF, ainda estão em fase de coleta de provas e instrução. Enquanto não houver uma sentença definitiva, Furlan goza de plena capacidade eleitoral, podendo registrar sua candidatura, participar de debates e, caso a tendência das pesquisas se confirme, ser eleito e diplomado governador.
A renúncia estratégica protocolada após a decisão do ministro Flávio Dino também serviu como um movimento de autodefesa política. Ao deixar a prefeitura voluntariamente antes do prazo legal de desincompatibilização, Furlan evitou o desgaste de uma batalha jurídica diária para retomar o cargo e transformou o limão em limonada: passou a circular pelo interior do estado com o discurso de que foi “retirado à força” de onde o povo o colocou. Essa narrativa de vitimização encontra terreno fértil em um estado onde a polarização política é acentuada e o sentimento anti-institucional pode ser canalizado contra adversários que detêm a máquina estadual.
No campo das alianças, o PSD de Gilberto Kassab oferece a Furlan a musculatura necessária para enfrentar uma campanha majoritária. Com tempo de televisão, fundo partidário robusto e o apoio de figuras como o senador Lucas Barreto, o ex-prefeito não está isolado. A política amapaense observa com cautela esse movimento, pois a força eleitoral de Furlan pressiona o arco de alianças do governador Clécio Luís e do senador Davi Alcolumbre (União), forçando-os a uma estratégia de confronto direto que, até o momento, não surtiu o efeito desejado de reduzir a popularidade do ex-prefeito.
As pesquisas de opinião realizadas em março de 2026 mostram que Furlan detém mais de 60% das intenções de voto em cenários de segundo turno, um número que desafia a lógica tradicional de que operações policiais sepultam carreiras. O eleitorado parece adotar uma postura pragmática, separando a conduta pessoal e as suspeitas de corrupção da capacidade de entrega de serviços públicos. Esse pragmatismo é o combustível que mantém Furlan como o favorito, criando um cenário de tensão onde a velocidade do Poder Judiciário corre contra o calendário das urnas.
Entretanto, o risco jurídico é o único fator que pode alterar esse roteiro. Se o Tribunal Regional Federal ou o próprio STF avançarem com uma celeridade atípica e produzirem uma condenação colegiada antes do pleito de outubro, o castelo de cartas de Furlan pode ruir instantaneamente. A possibilidade de uma impugnação de candidatura de última hora assombra o PSD, mas a aposta do partido é que a lentidão sistêmica da justiça brasileira garantirá o tempo necessário para a consagração popular.
Enquanto o dia da eleição não chega, o Amapá assiste a uma campanha antecipada marcada por uma dicotomia profunda. De um lado, o aparato estatal e o Ministério Público apontam crimes graves que ferem o erário; de outro, uma massa de eleitores que vê em Furlan o gestor capaz de transformar o estado da mesma forma que transformou a capital. O desfecho dessa queda de braço definirá se o Amapá terá um governador sob júdice ou se as investigações da Operação Paroxismo se tornarão apenas uma nota de rodapé em uma história de ascensão política meteórica. Em 2026, o tribunal das urnas e o tribunal da lei travam uma disputa silenciosa pelo futuro do estado, onde a presunção de inocência e o carisma político são as principais armas de Antônio Furlan.

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