Quando a Justiça imita a máfia
A declaração infeliz de Gilmar Mendes sobre a máfia expõe a crua realidade de uma corte suprema transformada em um clube fechado protegido pelo medo e pela omissão

“Até a máfia tem ética.” A frase proferida por Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, durante uma sessão da corte em setembro de 2026, para criticar a condução do inquérito do Banco Master pelo ministro André Mendonça, ecoa com uma ironia trágica e involuntária. Quando o integrante mais antigo do tribunal máximo de um país precisa evocar os parâmetros de conduta de organizações criminosas para cobrar decoro ou alinhamento de seus pares, algo fundamental se rompeu na engrenagem republicana. Essa declaração infeliz não é um mero lapso verbal; ela é o sintoma escancarado de uma cultura institucional que há muito trocou o império da lei pelo império da conveniência, transformando o STF no retrato acabado do “amigo dos amigos”.


Para compreender a profundidade desse abismo moral, é preciso revisitar o clássico do cinema Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990), obra-prima de Martin Scorsese que narra a ascensão e a queda de Henry Hill. No submundo mafioso retratado por Scorsese, a regra de ouro que sustenta o pacto de silêncio e impunidade é cristalina: nunca dedure seus amigos e mantenha sempre a boca fechada. É o código da omissão mútua, da proteção corporativa e do compadrio acima de qualquer valor republicano. Transportada para a Praça dos Três Poderes, essa cartilha mafiosa encontra terreno fértil na dinâmica atual do Supremo, onde os interesses particulares e a preservação de privilégios parecem atropelar o compromisso constitucional com a sociedade brasileira.

O que se vê hoje é a consolidação de um agrupamento de homens e mulheres togados com carta branca para fazer o que bem entendem no país, destituídos de qualquer freio institucional efetivo. A concentração de poder atingiu patamares tão alarmantes que desafia a própria lógica da separação de poderes. Vejamos, por exemplo, o caso do ministro Alexandre de Moraes. A influência e o raio de ação de Moraes tornaram-se tão extensos que até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstra evidente cautela, evitando a todo custo contrariá-lo, temendo os desdobramentos de um confronto institucional.

Essa paralisia por medo não se restringe à esquerda. Representantes da direita, que historicamente vocalizam críticas aos excessos do judiciário, também adotam uma postura de submissão pragmática, evitando desafiar o status quo por puro cálculo de sobrevivência política. A prova mais cabal dessa rendição dos poderes da República é a postura do presidente do Congresso Nacional, senador David Alcolumbre (União Brasil). Sem pudores, Alcolumbre já afirmou publicamente, em alto e bom tom, que jamais pautará qualquer discussão ou processo destinado a debater a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo, a começar pelo próprio Moraes.

Com essa declaração, o chefe do Poder Legislativo abdica voluntariamente da prerrogativa constitucional de fiscalizar e conter eventuais abusos do Judiciário. O Congresso, que deveria ser a caixa de ressonância da vontade popular e o contrapeso natural aos demais poderes, transforma-se em um mero espectador acovardado, temeroso das consequências de cumprir o seu papel constitucional. Quando o Legislativo se recusa a exercer o controle de constitucionalidade e a fiscalização política por conveniência, o sistema de freios e contrapesos deixa de existir na prática, dando lugar a uma autocracia velada onde a toga se sobrepõe ao voto popular.

O cidadão brasileiro, que financia toda essa estrutura com o suor do seu trabalho, assiste estarrecido a esse pacto de silêncio. Enquanto a inflação aperta o orçamento familiar e os serviços públicos essenciais agonizam por falta de recursos, a cúpula do poder consome seu tempo e energia gerenciando disputas de narrativa, protegendo aliados e blindando-se contra qualquer forma de responsabilização. A justiça, que deveria ser cega para julgar com imparcialidade, abriu os olhos apenas para enxergar quem são os amigos e quem são os inimigos de plantão, aplicando pesos e medidas distintos conforme a conveniência política do momento.

A fala de Gilmar Mendes sobre a ética da máfia, por mais paradoxal que pareça, serve como uma bizarra confissão involuntária. Ela expõe o esgotamento moral de um modelo de governança onde as leis servem para disciplinar o cidadão comum, enquanto os poderosos operam sob um código próprio de imunidade e compadrio. O Brasil não pode continuar a ser refém de uma corte que se autolegitima e de um parlamento que se omite por covardia.

Resgatar a República exige coragem para romper com esse pacto de silêncio nos moldes de Os Bons Companheiros. É preciso que a sociedade civil, a imprensa livre e as vozes lúcidas do país voltem a cobrar transparência, limites constitucionais e respeito à separação de poderes. Afinal, um país onde a justiça se curva ao compadrio e onde os representantes do povo tremem diante de burocratas togados deixa de ser uma democracia para se tornar, tragicamente, um feudo de intocáveis.




