OPINIÃO

Presidencialismo de coalizão dita as regras do jogo eleitoral

Prazo final das convenções expõe o jogo político do Centrão, que prefere a neutralidade inicial e foca na eleição parlamentar para inflar bancadas e negociar cargos no futuro governo


À medida que o calendário eleitoral avança e a data-limite de 5 de agosto para a realização das convenções partidárias se aproxima, o cenário político brasileiro expõe uma de suas engrenagens mais pragmáticas e calculistas. Embora a disputa pelas cadeiras nas assembleias legislativas e na Câmara dos Deputados siga um rumo relativamente previsível, o tabuleiro das candidaturas majoritárias — para os governos estaduais e, de forma ainda mais evidente, para a Presidência da República — revela um arranjo marcado pela incerteza deliberada. A hesitação em homologar chapas completas não decorre de mera desorganização interna, mas sim de uma estratégia friamente calculada, em que o tempo é utilizado como moeda de troca em um jogo de forças que projeta seus efeitos para muito além do dia da votação.
No centro dessa dinâmica está o bloco de partidos conhecidos como centrão, cuja atuação tem se pautado pela busca da neutralidade no primeiro turno das eleições majoritárias. Diferente de outros momentos da história recente, em que o apoio de certas siglas era disputado a peso de ouro para garantir tempo de rádio e televisão ou recursos financeiros, hoje a realidade é outra. Abastecidas por fundos públicos expressivos, como o Fundo Partidário e o Fundo Eleitoral, essas legendas já não dependem de coligações para financiar suas campanhas. O objetivo central migrou do financiamento para a preservação de poder. Em um ambiente político profundamente polarizado, a prioridade desses grupos não é erguer bandeiras ideológicas, mas assegurar a sobrevivência e a influência institucional por meio do fortalecimento de suas bancadas no Congresso Nacional.
A lógica por trás dessa postura neutra é simples e pragmática. Qualquer governo que assuma a gestão do País a partir de 2027 necessitará, inevitavelmente, de uma base de sustentação no Parlamento para aprovar projetos de lei, reformas e orçamentos. Ao evitar o engajamento precoce em uma única candidatura majoritária, o centrão evita o desgaste de uma eventual derrota e preserva suas fichas para negociar com quem quer que saia vitorioso das urnas. Trata-se do funcionamento clássico do presidencialismo de coalizão em sua forma mais crua, em que a governabilidade se torna um ativo negociado de forma contínua, muitas vezes desatrelado de programas de governo ou afinidades doutrinárias.
A flexibilidade pragmática de lideranças políticas ilustra como as alianças no Brasil frequentemente transcendem espectros ideológicos tradicionais. Figuras centrais de partidos de grande porte navegam entre diferentes administrações ao longo dos anos, ocupando ministérios e cargos estratégicos tanto em gestões de esquerda quanto de direita. Essa maleabilidade reflete uma premissa consolidada no sistema político nacional: a presença na máquina pública não se sustenta pela identidade programática, mas pela capacidade de entregar votos e garantir estabilidade regimental na Câmara e no Senado. A história política recente demonstra que o custo de ignorar essa engrenagem costuma ser alto. Governos que tentaram governar à revelia de uma base sólida no Congresso enfrentaram paralisia legislativa e severas crises institucionais que culminaram no encerramento antecipado de mandatos, como nos casos de Fernando Collor e Dilma Rousseff.
Esse ambiente de cálculo intensivo impacta diretamente a montagem das chapas presidenciais e estaduais, dificultando a definição das posições de vice até os últimos momentos do prazo legal. Candidatos que lideram ou ocupam posições relevantes nas pesquisas de intenção de voto, a exemplo de Flávio Bolsonaro e de Romeu Zema, enfrentam entraves para fechar alianças estratégicas que somem musculatura regional ou aceitação em setores específicos do eleitorado. A hesitação das siglas em indicar nomes para compor essas chapas decorre justamente do receio de fechar portas antes do momento oportuno.
Por outro lado, a busca pela manutenção de composições já testadas também atende a exigências táticas. A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter Geraldo Alckmin na vice-presidência em seu projeto de reeleição exemplifica essa busca por equilíbrio. A permanência do ex-governador paulista, filiado ao PSB, não visa apenas a garantir estabilidade na aliança atual, mas também preservar pontes com setores moderados e assegurar um palanque relevante no maior colégio eleitoral do País.
Diante desse panorama, o encerramento do prazo das convenções partidárias deixa claro que a consolidação de uma candidatura majoritária no Brasil vai além do simples registro de nomes em ata. A indefinição observada na reta final desse processo não representa uma falha no sistema, mas sim o reflexo de um modelo político onde a composição de forças para o exercício do poder futuro antecede a própria disputa eleitoral. Enquanto o eleitor aguarda a definição final das opções nas urnas, as legendas concluem suas contas, conscientes de que o verdadeiro valor de suas peças será cobrado quando as urnas se fecharem e a necessidade de governar se impuser.

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