OPINIÃO

Alcolumbre FC: o novo centro de gravidade da política brasileira

A derrota histórica do indicado de Lula simboliza o fim da soberania presidencial e o nascimento de uma era onde o Senado dita as regras


A política brasileira, mestre em produzir coreografias de bastidores que dizem mais do que qualquer discurso oficial, ofereceu em uma noite de quarta-feira a imagem definitiva do novo equilíbrio de forças no país. No sussurro de Davi Alcolumbre ao pé do ouvido de Jaques Wagner, antecipando a derrota de Jorge Messias por exatos oito votos, não estava apenas o vaticínio de um resultado matemático. Ali, no plenário do Senado, encenava-se o fim de uma era e o início de um regime em que a caneta do Palácio do Planalto já não escreve a última palavra, nem mesmo sobre as escolhas que a Constituição lhe reserva como exclusivas.
A rejeição de um indicado ao Supremo Tribunal Federal, evento que não se via desde os tempos de Floriano Peixoto, em 1894, é um terremoto cujos abalos sísmicos redesenham o mapa do poder em Brasília. Numa análise imediata, o episódio é lido como uma traição do centro e uma vitória circunstancial da oposição bolsonarista. Mas reduzir o gesto de Alcolumbre a uma mera aliança ideológica é ignorar a profundidade da rachadura aberta no tecido institucional. O que se viu foi a demonstração de força de um parlamentar que compreendeu, antes de todos os seus pares, que o Congresso não é mais um coadjuvante do Executivo, mas o seu tutor. Ao abraçar Wagner após o anúncio da derrota, Alcolumbre não consolava um aliado; ele selava a certidão de óbito da antiga supremacia presidencialista.
A pergunta que ecoava nos corredores — “por que Alcolumbre ainda insiste?” — encontrou uma resposta retumbante. O senador do Amapá não buscava apenas cargos ou emendas, moedas que o governo Lula acreditava serem suficientes para comprar a fidelidade do Legislativo. Ele buscava a afirmação de uma prerrogativa. O recado foi de uma clareza brutal: se o presidente indica, o Senado derruba. E essa capacidade de veto agora tem nome e sobrenome. A máxima “o Estado sou eu” ganha uma versão parlamentar sob a égide de Alcolumbre, que transformou a Casa Alta em seu feudo pessoal, onde a lealdade é medida pela conveniência do seu próprio projeto de reeleição para o comando da Casa em 2027.
Essa metamorfose do poder não ocorreu por acaso. Ela é o ápice de um processo de erosão da autoridade presidencial que vem se acelerando desde 2015. Do orçamento impositivo ao impeachment de Dilma Rousseff, passando pela anomalia do orçamento secreto, o Legislativo aprendeu o caminho do cofre e da autonomia. Alcolumbre, contudo, elevou o jogo. Se no passado ele deixou André Mendonça na “geladeira” para cobrar faturas políticas, desta vez ele optou pelo abate. O ressentimento por Lula não ter escolhido Rodrigo Pacheco para a vaga anterior de Luís Roberto Barroso foi o estopim, mas a pólvora já estava espalhada pela convicção de que o governo ignorou os avisos de que o tempo de submissão havia acabado.
Os articuladores do governo, presos a uma nostalgia de um presidencialismo que já não existe, acreditaram na premissa de que a rejeição de um nome ao STF seria uma “afronta sem precedentes” que ninguém ousaria cometer. Esqueceram-se de que o precedente é justamente o que Alcolumbre desejava criar. Ao ignorar as recomendações de acenos mais incisivos ao senador, Lula subestimou a disposição do Legislativo em testar os limites de sua própria força. O resultado foi um governo atordoado diante de um painel eletrônico que não apenas barrou um nome, mas expôs a fragilidade política de um Executivo que hoje governa sob licença do Congresso.
O que emerge desse episódio é um cenário de incertezas para os próximos ocupantes do Planalto, sejam eles quem forem. O tabu foi quebrado. A indicação para a Suprema Corte, antes vista como um rito de passagem quase protocolar, agora é um campo de batalha onde o presidente da República entra como um postulante, e não como um soberano. Esse enfraquecimento do Executivo sedimenta uma nova ordem onde o Judiciário, observando a derrota de um dos seus potenciais pares, deve ser o próximo alvo das investidas de um Parlamento cada vez mais consciente de sua musculatura.
Davi Alcolumbre não se mudou para a oposição; ele apenas consolidou o seu próprio partido: o “Alcolumbre FC”. Ele provou que tudo o que for de interesse do governo passará apenas se estiver milimetricamente alinhado com seus interesses e sua visão de poder. A derrota histórica de Lula não foi um acidente de percurso, mas a fotografia perfeita de um Brasil onde o centro de gravidade mudou de endereço, saindo da Praça dos Três Poderes para se concentrar no gabinete da presidência do Senado. O sussurro de oito votos de diferença foi, na verdade, um grito de independência que ecoará por muitos anos na política brasileira.

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