O limite necessário entre a política e o riso fácil
Ao cruzar a linha entre o carisma e o histrionismo, o prefeito interino Pedro DaLua arrisca a própria respeitabilidade. O portal Amazônia Via Amapá discute a necessidade de equilíbrio e sobriedade na condução dos destinos da capital amapaense

A dignidade da função pública não se sustenta apenas na legitimidade do voto ou na legalidade do cargo; ela reside, primordialmente, no equilíbrio entre a autoridade e a percepção social da mesma. Para um homem, o momento em que deixa de ser levado a sério marca o início do desmonte de sua identidade e respeitabilidade. No campo da política, esse fenômeno é ainda mais devastador. O governante que cruza a fronteira entre o carisma e o ridículo abdica de sua estatura de líder para assumir, inadvertidamente, a vestimenta do histrião. Este é o dilema que se apresenta hoje à gestão interina de Macapá sob o comando do vereador Pedro DaLua, cujo estilo de comunicação, inicialmente astuto, parece ter descarrilado para um terreno perigoso de exposição desnecessária e humor de gosto duvidoso.
A política, em sua essência, é uma atividade solene. Embora o bom humor seja uma ferramenta de aproximação e humanização, ele jamais deve ser o protagonista do ato administrativo. O equilíbrio é tênue. Quando DaLua assumiu a prefeitura em meio ao turbilhão causado pelo afastamento de Antônio Furlan, herdou não apenas o cargo, mas uma carga de deboche vinda dos aliados do antecessor. O apelido de “prefeitinho”, lançado com a intenção clara de apequenar sua figura diante do “prefeitão”, foi um teste de fogo. Naquele momento, o interino demonstrou uma agilidade de raciocínio invejável ao ressignificar o pejorativo. Ao adotar o slogan “se o prefeitão não fez, o prefeitinho faz”, ele não apenas desarmou seus opositores, mas transformou o diminutivo em símbolo de eficiência contra a megalomania inoperante do passado. Foi, sem dúvida, uma jogada de marketing político que lhe conferiu fôlego e simpatia popular.
No entanto, o sucesso imediato de uma estratégia de comunicação pode ser uma armadilha para os incautos. O reconhecimento da “sacada” parece ter embriagado o senso de limites do atual gestor. O que antes era uma resposta pontual a uma provocação política transformou-se em uma tentativa sistemática e forçada de ser engraçado em tempo integral. Vídeos que circulam nas redes sociais revelam um prefeito interino que ignora a gravidade do cargo para se expor em situações que beiram o grotesco. Piadas sem nexo, trocadilhos óbvios e uma necessidade latente de aprovação digital estão transformando a imagem do governante da capital naquela figura caricata conhecida popularmente como o “tiozão do churrasco” — aquele cujas piadas provocam riso apenas pela ruindade ou pelo constrangimento alheio.
A falta de nexo entre a postura do governante e a realidade dos problemas que afligem Macapá cria um abismo de credibilidade. Enquanto a cidade enfrenta desafios estruturais, epidemias de síndromes respiratórias e dilemas de gestão pública, a insistência em narrativas vazias e previsíveis de humor enfraquece a voz do comando. O riso, quando provocado pela inadequação do cargo à conduta, é um riso de descrédito. O cidadão pode até se divertir momentaneamente com o vídeo exótico no feed de notícias, mas é na hora de cobrar soluções para o asfalto, para o hospital ou para a educação que ele recordará da imagem do prefeito fazendo pilhérias desnecessárias. A autoridade se constrói na firmeza, não na comédia.
O risco que Pedro DaLua corre é o da irrelevância por via do deboche. Na história política, governantes que perderam a mão na dosagem da teatralidade raramente recuperam a seriedade perante o eleitorado. A política não é um palco de stand-up e a prefeitura não é um estúdio de criação de conteúdo de entretenimento. É necessário que o prefeito interino compreenda que a “ruindade” de uma piada, no contexto privado, é apenas um traço de personalidade; na esfera pública, é uma falha de julgamento que compromete a confiança institucional. A previsibilidade e a simplicidade extrema de suas recentes aparições nas redes sociais sugerem uma gestão que prefere o engajamento superficial à profundidade dos debates administrativos.
O portal Amazônia Via Amapá reafirma, por meio deste editorial, que a capital do estado exige um líder que seja, antes de tudo, respeitado. A transição entre o vereador que faz política com leveza e o prefeito que decide o futuro de milhares de famílias exige uma mudança de postura que DaLua ainda não consolidou. Não se trata de defender uma austeridade sisuda e anacrônica, mas de exigir o decoro que a cadeira de prefeito impõe. O carisma deve servir à gestão, e não o contrário. Se o “prefeitinho” deseja ser lembrado por algo além de uma brincadeira que foi longe demais, precisa guardar as piadas de “tiozão” para o ambiente doméstico e resgatar a sobriedade que Macapá espera de quem detém a caneta.
A fronteira entre o governante acessível e o bufão é perigosamente estreita. Quando a população para de ouvir as propostas de um político para rir de suas gafes planejadas, a democracia perde sua substância. DaLua teve a inteligência de vencer o rótulo inicial, mas agora demonstra a imprudência de querer ser o bobo da própria corte. O comando de uma capital como Macapá, especialmente em tempos de incerteza política e crises sazonais, não permite amadorismo na conduta. A responsabilidade, a proteção e o provimento — pilares da identidade que o homem público deve ostentar — não combinam com a busca desenfreada pelo riso fácil. É tempo de o prefeito interino redescobrir que governar é, essencialmente, uma tarefa para ser levada a sério. Caso contrário, o riso da cidade deixará de ser com ele para se tornar, definitivamente, dele.

