OPINIÃO

A força subversiva que ancora a fé

* Por Emanoel Reis

Neste abril de 2026, enquanto o calendário litúrgico conduz o mundo cristão a mais uma jornada de meditação sobre a Paixão e a Ressurreição, a arqueologia e a historiografia crítica convidam a um exercício de olhar para trás que subverte a iconografia clássica. O Jesus que emerge dos estudos recentes e das escavações em solo sagrado não habita os presépios de madeira polida ou as catedrais de mármore, mas sim um cenário de dureza geológica e privação material que beirava a miséria absoluta. Para compreender o impacto da mensagem que revolucionaria o Ocidente, é preciso descer às grutas de calcário da Judeia e caminhar pelos pátios de terra batida da Galileia, onde a sobrevivência era uma conquista diária e a dignidade humana era testada por um sistema de opressão romana implacável.
O cenário do nascimento, em Belém, dista significativamente das representações bucólicas do Renascimento; a localidade, conhecida como “casa do pão” devido à sua vocação agrícola, era na verdade uma aldeia rural encravada em uma área montanhosa, composta por habitações rudimentares que aproveitavam a topografia acidentada para subsistir. Naquela época, Belém era uma modesta cidade murada, mas sua importância era meramente simbólica, por ser o berço do rei Davi, enquanto na prática funcionava como um entreposto de caravanas entre Jerusalém e o Egito, sufocado por exigências fiscais do Império.
O parto de Maria, em uma cidade superlotada por conta de um censo impositivo, não ocorreu em um estábulo de marcenaria fina, mas provavelmente nas entranhas da terra. As casas da Judeia do século 1 eram frequentemente construídas sobre grutas de calcário ou adjacentes a elas, espaços que serviam de abrigo para animais e depósito de mantimentos. A manjedoura, longe de ser um berço improvisado em madeira, era um recipiente de pedra talhada usado para alimentar o gado dentro dessas cavernas.
É nesse ambiente úmido, escuro e compartilhado com animais que a tradição cristã situa o início da trajetória de Jesus, um detalhe preservado hoje pela estrela de prata na Igreja da Natividade, mas que na época representava o degrau mais baixo da escala social. A escassez de acomodações relatada nos textos bíblicos não era apenas um azar logístico, mas o reflexo de um povo em movimento por obrigação de um Estado que via nos súditos apenas números para a arrecadação de tributos. Essa vulnerabilidade inicial acompanharia Jesus em sua transição para o norte, onde o cenário de isolamento se tornaria ainda mais agudo.
Ao se transferir para Nazaré com José e Maria, o pré-adolescente Jesus ingressou em um mundo de invisibilidade política. Se Belém ainda gozava de certa fama histórica, Nazaré era um minúsculo enclave agrícola que sequer figurava nos mapas de relevância da Galileia. Com uma população estimada entre 300 e 600 habitantes, o vilarejo era um agrupamento de aproximadamente 50 casas rústicas, onde o conceito de privacidade era inexistente e a funcionalidade ditava a estética.
As moradias, erguidas com pedra e barro, fundiam-se à geologia local em uma arquitetura híbrida de sobrevivência. Os cômodos eram mínimos, com chão de terra batida ou cal, e os telhados planos de argila não eram meras coberturas, mas centros vitais de convivência onde se secavam grãos e se fugia do calor opressor das pequenas salas internas. A vida social de Jesus foi forjada em pátios compartilhados, onde o som dos moinhos de pedra e o calor dos fornos comunitários nivelavam todos pela mesma régua da simplicidade extrema. Não havia espaço para o acúmulo; cada utensílio, cada espaço de armazenamento nas grutas anexas às casas, era destinado ao que era essencial para o dia seguinte.
Nesse cotidiano de rústica subsistência, a higiene e o saneamento revelam a face mais crua da precariedade da época. A população nazarena, incluindo a Sagrada Família, não dispunha de banheiros ou privadas particulares. As necessidades fisiológicas eram resolvidas em latrinas comunitárias, penicos de barro ou diretamente ao ar livre, nas encostas das colinas galileias. A ausência de saneamento básico era acompanhada por métodos de limpeza que, aos olhos modernos, beiram o insuportável: na falta de papel, utilizava uma esponja do mar fixada na ponta de um caniço de madeira. Após o uso, o artefato era mergulhado em baldes com água ou vinagre para ser reutilizado pela próxima pessoa da comunidade. Esse detalhe, frequentemente omitido das pregações, humaniza radicalmente a figura histórica de Jesus, inserindo-o em uma realidade de odores fortes, doenças latentes e uma absoluta falta de infraestrutura que castigava o corpo físico da mesma forma que os impostos romanos castigavam a alma.
Jesus cresceu observando essa engrenagem de sofrimento. A Galileia do século 1 não era apenas um cenário bucólico de pescadores, mas uma região sob leis draconianas e uma carga tributária que drenava qualquer possibilidade de ascensão econômica. O povo vivia em uma situação de quase miséria absoluta, sem qualquer rede de proteção ou cuidado por parte das autoridades locais, que funcionavam como braços executores de Roma. Essa vivência intensa da dor alheia e da própria escassez foi o solo fértil onde brotou um ministério de mobilidade e desapego.
A simplicidade de sua habitação em Nazaré permitiu que, na vida adulta, ele não tivesse “onde reclinar a cabeça”, transformando a privação em liberdade para percorrer a Judeia e a Galileia sem o peso de posses materiais. O despojamento de Jesus não era uma escolha estética ou uma estratégia de marketing espiritual; era a condição intrínseca de quem nasceu em uma gruta e cresceu em um vilarejo de camponeses esquecidos pelo Império.
A arqueologia moderna, ao revelar os restos de casas e cisternas sob a moderna Basílica da Anunciação, ratifica essa narrativa de humildade radical. O contraste entre as latrinas comunitárias de Nazaré e a opulência dos palácios de Herodes em Jerusalém servia como uma metáfora constante da injustiça social que Jesus denunciaria em suas parábolas. Ao falar sobre o “pão nosso de cada dia”, ele não usava uma força de expressão, mas referia-se à incerteza real de quem dependia de uma colheita em socalcos nas colinas para não passar fome.
Sua autoridade junto às massas despossuídas vinha do fato de que ele partilhava dos mesmos calos, das mesmas limitações higiênicas e da mesma revolta silenciosa contra um sistema que punia a pobreza com mais pobreza. O homem que seria aclamado como rei entrou no mundo em meio ao feno de uma caverna e saiu dele sem deixar bens, desafiando a lógica do poder através de uma trajetória que teve na simplicidade sua maior força subversiva.
Assim, ao meditar sobre a ressurreição neste 2026, a compreensão desse cenário histórico serve para ancorar a fé em uma realidade tangível. Jesus não foi um filósofo de academia ou um místico isolado em um castelo, mas um artesão que conhecia o peso da pedra, o cheiro da terra e a dureza de uma vida sem saneamento ou segurança. Essa “quase miséria absoluta” que ele habitou não foi um obstáculo ao seu ministério, mas o próprio combustível de sua mensagem de esperança. A ressurreição, nesse contexto, ganha um contorno de vitória definitiva sobre a poeira de Nazaré e o abandono de Belém.
O Cristo que vence a morte é o mesmo que sobreviveu à negligência do Estado e à aspereza da gruta, provando que, mesmo nos cenários mais áridos e desprovidos de humanidade, pode germinar o que há de mais sagrado. A memória de sua infância rústica permanece como um lembrete de que a verdadeira transformação histórica não costuma nascer nos centros de poder, mas nos pequenos e isolados enclaves onde a vida, apesar de tudo, insiste em florescer.


TERRAS CAÍDAS — Autor: Emanoel Reis.
É um romance inspirado em assombroso fenômeno amazônico. Acesse o QR Code para saber mais sobre este livro.

Magnífica Humanitas: As 10 Inovações da Encíclica de Leão XIV para o Mundo Digital

*Frei Betto

Há 135 anos, Leão XIII respondia aos desafios da Revolução Industrial com a Rerum Novarum. Agora, seu sucessor, Leão XIV, apresenta uma nova “carta social” para a era digital: a encíclica Magnífica Humanitas (Humanidade Magnífica). Mais do que um documento sobre inteligência artificial (IA), é um magistério inovador que recalibra a linguagem e o conteúdo da mensagem da Igreja para o século XXI. A seguir, os pontos que mostram como o Papa atualiza o olhar cristão sobre o mundo.
A Centralidade do Humano: O Papa fala de IA, mas seu foco é a pessoa. Enquanto a tecnologia é citada 14 vezes, a palavra “dignidade” aparece 98 vezes e “pessoa”, 158. O título Humanitas já é um manifesto: o debate não é técnico, mas antropológico.
Superação do Paradigma Tecnocrático: Um dos maiores alertas é contra a lógica que faz da eficiência o “valor supremo”. Leão XIV denuncia a tentação de nos vermos como “projetos a serem otimizados” e as IAs que, ao imitar o humano, ameaçam reduzir o seu mistério a meros dados.
O Fim da Teoria da Guerra Justa: Ao declarar superada a teoria da “guerra justa”, a encíclica inova na Doutrina Social. Com armas autônomas e potencial destrutivo imenso, o Papa argumenta que o uso da força deve ceder lugar ao diálogo e à diplomacia, e reafirma a paz como único caminho válido.
O Poder Privado como Nova “Questão Social”: Se antes o poder era dos Estados, hoje o motor da inovação está nas grandes empresas de tecnologia. A encíclica alerta que essas entidades privadas detêm soberania sobre dados e decisões, ditam novas formas de exclusão social e exigem um novo enquadramento ético.
Um Pedido de Perdão Histórico: Em atitude sem precedentes, Leão XIV pede perdão pela demora da Igreja em condenar a escravidão no passado. Este gesto de humildade institucional busca purificar a memória e reforçar a urgência de combater as “novas escravidões” digitais.
O “Desarmamento” da Inteligência Artificial: O Papa introduz um conceito forte e original ao defender que a IA deve ser “desarmada”. Tal como fez com as armas nucleares, a Igreja clama por controle público e discernimento moral sobre uma tecnologia que, sem freios, pode amplificar a injustiça.
Leão XIV inova não apenas no conteúdo, mas também na linguagem de documentos pontifícios:
Torre de Babel vs. Jerusalém: Em vez de jargões técnicos, Leão XIV usa a metáfora bíblica da Torre de Babel (que leva à confusão) versus a reconstrução de Jerusalém (que requer esforço paciente e comunitário). Isso traduz a escolha fundamental da humanidade: construir um mundo de dominação ou uma civilização do amor.
Glossário do Mundo Digital: A Igreja não se furta a usar a linguagem do nosso tempo. O documento explica conceitos como “algoritmo” (definido como uma série de instruções passo a passo), “alinhamento de IA” e “paradigma tecnocrático”, e mostra que o magistério compreende as ferramentas que analisa.
Diálogo Inclusivo e Pluriversal: A encíclica foge do monólogo ao citar pensadores tão diversos como Dorothy Day, J.R.R. Tolkien, Martin Luther King e Hannah Arendt. Leão XIV convida para o debate desde engenheiros da Anthropic até vítimas da exclusão digital, e adota uma linguagem de escuta ativa e construção conjunta.
Narrativa da “Civilização do Amor”: O tom não é de condenação apocalíptica, mas de esperança ativa. O Papa desafia cada pessoa a não ser um “espectador passivo” ou um “arquiteto ganancioso”, mas um “construtor da civilização do amor”. A linguagem pastoral incentiva a ação positiva, não apenas a crítica, para que o digital seja habitat de fraternidade.
Com Magnifica Humanitas, Leão XIV demonstra que inovar não significa abandonar a tradição, mas aplicá-la com coragem aos sinais dos tempos. Ao humanizar o debate sobre a tecnologia, pedir perdão por erros passados e desarmar o discurso bélico, o Papa oferece um roteiro para que a inteligência artificial sirva para construir a Cidade de Deus — e não uma nova e desumana Torre de Babel.

*  Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros.


A verdadeira história do alumínio

* Por Lúcio Flávio Pinto

O início da década de 1980, período correspondente ao governo do general João Batista Figueiredo — o último ciclo do regime militar iniciado após o golpe de Estado de 1976 —, foi marcado por intensas e complexas movimentações nos bastidores do setor elétrico e industrial brasileiro. Entre os temas que exigiam maior acompanhamento técnico e atenção jornalística destacavam-se as arrastadas negociações para a assinatura do maior contrato de energia elétrica do Brasil. O acordo envolvia duas gigantes estatais de perfis distintos: de um lado, a Albrás (Alumínio do Brasil S/A), a maior fábrica de alumínio primário do país, estrategicamente instalada no município de Barcarena, no Pará; do outro, a Eletronorte, empresa pública criada em 1973 com a missão de erguer a usina de Tucuruí, no rio Tocantins, que viria a se consolidar como a quarta maior hidrelétrica do mundo.
Os termos finais desenhados para aquele contrato inicial eram flagrantemente desfavoráveis aos interesses públicos, configurando o que analistas e cronistas da época classificavam como um autêntico crime de lesa-pátria. Mesmo sob as restrições políticas de um regime de exceção que caminhava para o fim, o jornalismo independente conseguiu expor com total liberdade as bases prejudiciais daquela negociação. Curiosamente, a postura marcadamente crítica da imprensa regional não parecia incomodar os principais articuladores do acordo. Havia, entre os tecnocratas e diretores corporativos, a plena convicção de que a opinião pública nacional jamais demonstraria interesse real por um tema considerado excessivamente árido, técnico e distante do cotidiano das grandes cidades.
A expectativa de que a redemocratização do país trouxesse um acerto de contas definitivo e uma revisão dessas injustiças estruturais acabou frustrada pelo pragmatismo político das décadas seguintes. Anos mais tarde, sob a gestão do Partido dos Trabalhadores (PT) — agremiação que alcançou o poder central sob a promessa histórica de governar em nome das parcelas marginalizadas da população —, o enredo econômico da Amazônia repetiu fielmente as velhas diretrizes traçadas durante o período militar. As indústrias de alumínio primário, controladas por poderosos consórcios multinacionais, continuaram a desfrutar de vantagens tarifárias monumentais. O custo operacional desse arranjo seguiu sendo faturado contra o mesmo contribuinte que havia elegido o operário Luiz Inácio Lula da Silva. Na prática, a fatura energética e social de 2004 mostrou-se tão amarga e onerosa para os cofres públicos quanto aquela pactuada em 1984.
O silêncio e a apatia da sociedade civil em relação aos rumos de seus recursos naturais e energéticos tornaram-se ainda mais evidentes em 2010. Naquele ano, a Companhia Vale do Rio Doce tomou a decisão drástica de alienar a totalidade de seus ativos estruturais no polo de alumínio do estado do Pará. A transação envolveu a transferência de um complexo industrial integrado de valor estratégico inestimável: a mineradora responsável pela lavra das ricas jazidas de bauxita em Paragominas; a Alunorte, detentora do título de maior fábrica de alumina do planeta; e a própria Albrás, principal unidade produtora de alumínio do continente e a oitava maior do mundo.
A confirmação da venda de todo o complexo para o grupo norueguês Norsk Hydro causou profundo impacto nos observadores do setor mineral. A justificativa oficial apresentada pela diretoria da Vale para se desfazer dessas operações concentrava-se no custo da energia elétrica na região, que, segundo a empresa, havia atingido patamares elevados que inviabilizavam a rentabilidade da produção do alumínio metálico. Independentemente das oscilações de mercado alegadas, a entrega do controle acionário dessas indústrias foi apontada como um grave retrocesso soberano.
Historicamente, o domínio sobre a cadeia produtiva de materiais não ferrosos e metalúrgicos básicos sempre foi tratado por economistas e planejadores estratégicos como um elemento vital para a segurança nacional. O suprimento interno de insumos dessa magnitude impede que a infraestrutura de um país em desenvolvimento fique vulnerável às flutuações geopolíticas externas. Embora o Brasil tenha alcançado a autossuficiência e a condição de grande exportador mineral graças às províncias de Carajás, a ausência de uma política de Estado perene deixou o setor exposto à lógica estritamente financeira das corporações privadas, focadas exclusivamente na contabilidade de curto prazo de lucros e prejuízos.
Ao abrir mão desse parque industrial após mais de duas décadas de uma convivência societária complexa e conflituosa com um consórcio de trinta e duas empresas do Japão, a Vale promoveu um recuo histórico na política de agregação de valor aos recursos naturais amazônicos. A perda do controle nacional sobre a atividade industrial que mais absorve eletricidade no país ocorreu sem que houvesse qualquer debate expressivo nos parlamentos ou protestos por parte das lideranças civis. Essa mesma indiferença se repete diante dos desafios contemporâneos da transição energética e da descarbonização global. Enquanto o mundo avança na pesquisa de rotas tecnológicas baseadas no hidrogênio verde para frear as emissões de dióxido de carbono, a Amazônia corre o risco de permanecer estagnada, atuando como mera fornecedora de energia barata e insumos primários, sem ditar o ritmo da própria história.
A análise minuciosa dos bastidores contratuais da Albrás ajuda a reconstituir os mecanismos financeiros que viabilizaram esse cenário ao longo do tempo. Na véspera de um leilão de energia originalmente agendado para abril de 2004, a diretoria da Albrás cancelou repentinamente a disputa que visava a aquisição de 800 megawatts médios, adiando o certame para o mês seguinte sob a vaga alegação de “motivos técnicos”. O movimento de força ocorreu porque o contrato original de fornecimento firmado com a Eletronorte estava prestes a expirar após duas décadas de vigência, e as negociações bilaterais para a sua renovação encontravam-se travadas em um impasse de preços.
A Albrás pressionava para fixar uma nova tarifa de longo prazo situada em um intervalo oscilando entre 9 e 12 dólares por megawatt-hora (MWh). O valor teto correspondia ao que a empresa já pagava historicamente, enquanto o piso de 9 dólares era justificado como um alinhamento necessário aos preços de energia praticados por fundições concorrentes instaladas em outras partes do mundo. Em contrapartida, a Eletrobrás, na condição de holding controladora da Eletronorte, exigia que o preço fosse elevado para 20 dólares por MWh. O argumento da estatal baseava-se na necessidade de equalizar as condições com a usina da Alumar, uma indústria de alumínio de porte semelhante operada pelo consórcio Alcoa/Billiton em São Luís do Maranhão, que, apesar de desfrutar de incentivos fiscais parecidos, operava com custos de insumo sensivelmente maiores e já havia financiado a expansão de suas próprias linhas de transmissão.
O leilão emergencial desenhado para o Mercado Atacadista de Energia (MAE) tinha como meta formal garantir o suprimento de 750 MW médios entre os meses de junho e dezembro de 2004. O arranjo garantiria a continuidade das operações da fábrica em Barcarena até o fechamento daquele ano fiscal, evitando a perda imediata de competitividade nos mercados internacionais enquanto uma solução definitiva não fosse desenhada. A magnitude desse volume de energia ganha relevo quando comparada ao consumo civil: a demanda elétrica da Albrás equivalia, sozinha, à soma de todo o consumo residencial e comercial das capitais Belém e Manaus, que abrigavam juntas uma população de quase três milhões de habitantes.
Apesar de toda a encenação pública e das declarações rígidas emitidas pelas autoridades do setor elétrico federal, a disputa no ambiente do mercado livre de energia configurava um jogo de cartas marcadas. No curto e médio prazo, a Albrás não possuía nenhuma outra fonte alternativa capaz de entregar de forma segura a potência exigida por seus fornos de redução que não fosse a rede de transmissão vinculada à hidrelétrica de Tucuruí. Simultaneamente, para a Eletronorte, a fundição paraense representava a garantia de compra regular de um terço de toda a energia firme gerada por Tucuruí — usina que respondia por 80% da produção da estatal na Amazônia e por quase 10% de toda a demanda do território brasileiro. Havia uma dependência mútua indissociável que forçava as partes a buscar um arranjo de bastidores.
Ao longo das duas primeiras décadas de operação com tarifas altamente favorecidas, o volume de subsídios indiretos carreados para a Albrás atingiu uma cifra equivalente a todo o capital investido na construção da própria fábrica, estimado em 1,8 bilhão de dólares em valores históricos. Esse desequilíbrio decorreu do fato de que as tarifas cobradas não cobriam os custos reais de geração, acrescidos das amortizações financeiras da construção de Tucuruí. Como essa diferença não saía do caixa da mineradora privada, a conta acabou sendo absorvida pelo erário nacional e financiada pelo bolso do contribuinte comum por meio de aportes e subsídios cruzados do sistema elétrico. Foram essas transferências recorrentes que evitaram a falência técnica da Eletronorte, deixando uma herança de desajustes crônicos nas contas públicas do setor.
Os prejuízos e o descompasso financeiro da usina de Tucuruí não teriam alcançado tais proporções se o orçamento de sua construção não tivesse sofrido desvios e reajustes exponenciais. O planejamento original previa um gasto total de 2,1 bilhões de dólares para a conclusão da barreira e das casas de força. Contudo, o balanço final da obra saltou para 4,7 bilhões de dólares nas contas oficiais da Eletronorte, atingiu 7,5 bilhões de dólares nos relatórios independentes elaborados pela Comissão Mundial de Barragens e superou a marca de 10 bilhões de dólares nas auditorias que rastrearam os intrincados nós financeiros dos financiamentos externos e internos contraídos na época.
Esse crescimento desmedido dos custos foi publicamente atribuído a esquemas de corrupção e desvios por lideranças industriais proeminentes, como o ex-presidente da própria Vale, Eliezer Batista. À época, tais denúncias receberam escassa atenção dos grandes veículos de comunicação nacionais, sendo registradas majoritariamente por publicações independentes e jornais de oposição regional. O chamado “fator amazônico” — argumento frequentemente utilizado por empreiteiras para justificar as dificuldades logísticas de construir na floresta — não se mostrava suficiente para explicar o salto bilionário nos custos diretos e a profusão de aditivos contratuais obscuros que se sucederam ao longo da execução do projeto.
No epicentro das discussões sobre a renovação contratual em 2004, a grande questão de interesse público residia em definir se o Estado brasileiro deveria utilizar a nova concessão para ser ressarcido dos gastos históricos com a construção de Tucuruí, cobrando tarifas realistas e remuneratórias, ou se deveria perpetuar a política de preços artificialmente baixos. Praticar preços abaixo do custo de oportunidade significava transferir indefinidamente para o Tesouro Nacional o ônus de uma dívida bilionária, poupando as multinacionais metalúrgicas do custo real do insumo que consumiam.
Em maio de 2004, o impasse foi temporariamente contornado com a assinatura de um novo contrato de fornecimento com duração prevista para vinte anos, totalizando um valor global estimado em 3,4 bilhões de dólares — o equivalente a 170 milhões de dólares anuais. O desenho final da operação utilizou as regras de leilão do Mercado Atacadista de Energia (MAE) como uma blindagem jurídica para evitar questionamentos sobre favorecimento. Embora juridicamente qualquer geradora privada do país pudesse apresentar propostas, as concorrentes do Sudeste, como a Companhia Energética de São Paulo (Cesp), desistiram da disputa ao constatarem que o custo de pedágio pelo uso das linhas de transmissão de longa distância consumiria mais de um terço do teto de preço fixado no edital, que era de 53 reais por MWh.
A Eletronorte sagrou-se vencedora do leilão apresentando exatamente o lance máximo permitido de 53 reais por MWh. Na época, o valor representava um acréscimo nominal superior a 50% em relação aos 34 reais (cerca de 11 dólares) que a Albrás vinha pagando até o vencimento do arranjo anterior. Paralelamente, a Alumar também fechou seu leilão garantindo uma tarifa de aproximadamente 60 reais por MWh. Como os preços finais bateram exatamente no teto dos editais sem que houvesse concorrência de lances na plataforma de negociação, consolidou-se no mercado a percepção de que as bases financeiras já haviam sido previamente costuradas em comissões conjuntas, utilizando o formato de leilão público apenas para esvaziar o debate político e as críticas que o tema vinha despertando.
Como contrapartida ao teto tarifário vantajoso, a Albrás concordou em injetar um adiantamento financeiro de 1,2 bilhão de dólares nas contas da Eletronorte, dividido em seis parcelas periódicas. O aporte emergencial justificava-se pela situação de extrema fragilidade do caixa da estatal de energia, que carregava um passivo acumulado de 5,6 bilhões de reais em dívidas — dos quais 3,7 bilhões eram decorrência direta dos subsídios energéticos sustentados nas duas décadas anteriores. Esse estrangulamento financeiro havia provocado o atraso no pagamento de fornecedores e empreiteiras que trabalhavam nas obras de duplicação da própria hidrelétrica de Tucuruí.
Os recursos antecipados pela fábrica de alumínio permitiram a manutenção do cronograma de expansão da usina. Com a instalação gradual de novas máquinas na segunda casa de força, a potência nominal de Tucuruí saltou de 4,2 mil MW para 5,7 mil MW, caminhando para atingir sua capacidade plena de 8,3 mil MW com 23 geradores em operação. O projeto definitivo consolidou a barragem paraense como a segunda maior hidrelétrica da América do Sul e a quarta maior do planeta, ficando atrás apenas do complexo de Guri, na Venezuela, e das maiores estruturas do Leste Asiático e de Itaipu.
O encerramento das obras garantiu um horizonte de segurança operacional único para o polo metalúrgico. Mesmo com o aumento da capacidade instalada de Tucuruí, os 800 megawatts de consumo firme da Albrás passaram a abocanhar mais de 20% de toda a energia firme disponível na usina durante o ano inteiro. Dificilmente qualquer outro complexo industrial de alumínio no mundo dispunha de um suprimento de longo prazo tão estável, protegido contra oscilações sazonais e com preços atrelados diretamente às cotações do metal na Bolsa de Metais de Londres (LME). O teto de 53 reais homologado no leilão funcionou como uma garantia de lucratividade extraordinária para a atividade de exportação do consórcio privado.
Para a Eletronorte, a garantia de receita anual de 370 milhões de dólares decorrente dos dois contratos — Albrás e Alumar — gerou uma estabilidade de fluxo de caixa inédita, permitindo que a empresa apresentasse lucros operacionais em seus balanços após quase trinta anos consecutivos de déficits crônicos dentro do sistema Eletrobrás. Os diretores da estatal celebraram o fechamento dos negócios junto à mídia especializada, apontando que as novas taxas de rentabilidade asseguravam o equilíbrio das operações correntes.
Contudo, os balanços e os comunicados oficiais omitiram a resposta para o problema do passivo histórico acumulado. Para que a Eletronorte pudesse amortizar a dívida de 5,6 bilhões de reais herdada do período de construção e subsidiação, os leilões deveriam ter fixado tarifas mínimas de 70 reais por MWh. Como a receita gerada pelas indústrias eletrointensivas cobria apenas os custos de operação e manutenção, a diferença financeira necessária para pagar os juros das dívidas passadas continuou sendo rateada entre os consumidores comuns do mercado regulado. Dessa forma, o cidadão comum e as pequenas empresas do país absorveram em suas contas de luz mensais o custo da amortização da estrutura que gerava o alumínio exportado.
Apesar de os novos contratos representarem o maior bloco de energia comercializado no mercado brasileiro, totalizando mais de 22 bilhões de reais em valores da época, a cobertura jornalística dos grandes periódicos nacionais limitou-se à reprodução dos comunicados oficiais emitidos pelas assessorias das empresas envolvidas. O debate sobre a privatização indireta dos recursos hídricos do rio Tocantins e a transferência de renda pública para grupos econômicos transnacionais ficou confinado a publicações especializadas e relatórios de institutos de pesquisa, evidenciando como as grandes decisões estruturais sobre a infraestrutura nacional e o destino das riquezas minerais da Amazônia permanecem apartadas do escrutínio e da consciência da sociedade brasileira.

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* Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui http://www.lucioflaviopinto.com.

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Semana no Congresso foi de causar revolta

* Por Fernando Gabeira

Chego a Brasília, e o carro desliza por longas avenidas vazias de gente. Fiz esse trajeto durante 16 anos. Ele termina num lugar onde os hotéis estão próximos uns dos outros. De seu quarto de hotel, você parte para o Congresso, um imenso ringue onde se ataca, se defende, às vezes se insulta e se é insultado, tomando rios de café em copinhos de plástico. Volta para o hotel sem saber direito o que produziu. Toma uma sopa. Amanhã recomeça.
Essas lembranças me ocupavam no caminho até que encontrei uma amiga, jornalista, com décadas de experiência em Brasília. Perguntei se estava tudo bem, e ela me respondeu: parece que vivo noutro planeta. Fiquei preocupado, pois, quando uma antiga moradora de Brasília se sente noutro planeta, o homem comum deve se sentir noutra galáxia.
Mais uma vez, os deputados aprontaram. Resolveram neutralizar a fiscalização do desmatamento por satélite. Ela é efetiva em 90% do território amazônico. Não se pode multar ninguém nem embargar nada baseado apenas nos dados de satélite. É preciso encontrar o dono das terras e notificá-lo. Isso significa que terá tempo para concluir o desmatamento ou fugir, se for o caso.
As maiores barbaridades estavam reservadas para as questões partidárias e eleitorais. Para começar, a proibição de gastar dinheiro nos períodos eleitorais caiu. Agora é possível doar bens, valores ou benefícios para turbinar campanhas. A semana foi chamada também de “liberou geral”. A minirreforma eleitoral praticamente blindou os partidos políticos em suas falcatruas. A multa máxima que podem pagar será de R$30 mil, eles que movimentam bilhões do fundo partidário. Ainda assim, poderão pagar a multa com o mesmo dinheiro público que malbarataram. Partidos endividados, ao se fundirem com outros, terão as dívidas perdoadas. Agora é possível o disparo maciço de propaganda pela internet, mesmo sem consentimento do eleitor.
Tudo isso divulgado pela imprensa me trouxe uma preocupação ao falar do assunto. Minha pergunta é esta: eles fazem barbaridades, nós protestamos, e a vida segue na mesma. Como se as barbaridades e nossos protestos fizessem parte do mesmo sistema, uns legitimando as outras.
Há alguma esperança? Honestamente, é preciso admitir que a sociedade terá de subir uma montanha para se liberar dessa gente que se move unicamente no sentido de se perpetuar no poder. Tudo é feito para que possam usar mais dinheiro e ganhar todas as eleições, deixando espaço mínimo para a renovação. É preciso renovação de qualidade, pois, quando você olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão unidos, de mãos dadas.
Quando deixei Brasília, no fim de semana, o aeroporto estava cheio. Uma pequena multidão nervosa parecia, como eu, buscar uma pausa desse espaço asfixiante. A funcionária diante dos detectores de metal gritava: “Quem tem marca-passo, por aqui, por aqui”. Em poucos minutos, com ou sem marca-passo, estávamos nos ares, pensando no fim de semana, almoços, jogão no Maracanã, todas essas pequenas alegrias da enorme prisão em que vivemos, dominados por aquela gente a fazer o que quer de nossas leis, imersos num mundo revelado pelo escândalo do Master.
Não sou mais menino. Sei o preço da revolta. Mas pagamos um preço enorme ao nos acomodarmos. Onde está o caminho?

* Escritor, Jornalista e ex-deputado federal


Corrupção é crime

*Por Alfredo Andrade

O comunismo implantado pela esquerda no Brasil sempre buscou o poder para destruir a família, o patriotismo e o cristianismo, sendo sua principal meta a propagação do ateísmo. Os cristãos depositam sua fé em Cristo, assim a caminhada é segura.
O país foi entregue a um ministro mandatário que age contra a lei e a Constituição. A sua esposa, advogada do Banco Master, recebeu um pagamento de R$ 80 milhões de reais, de acordo com informações da Receita Federal. No entanto, como nossas autoridades são negligentes, ineficazes e corruptas, elas se recusam a instaurar uma CPI. A partir de agora, tentarão restringir as colaborações premiadas. Se a confissão do antigo banqueiro Daniel Vorcaro “incluirá Moraes e sua esposa, que receberam R$ 80 milhões do Banco Master, conforme comprovado pela Receita Federal, por que impedi-la? Como consolidar o Estado de Direito sem a aplicação correta do processo legal?
Dentro de sua inidoneidade e falta de caráter “Lula largou a mão de Moraes” afirmando que: “quem vai para o STF não deve buscar enriquecer: Se quer ficar milionário, não pode ser Ministro da Suprema Corte”.
A tensão em Brasília não é causada pelo povo que está desempregado e com fome, mas sim pelos ladrões dos cofres públicos. Alcolumbre necessita de um pouco de vergonha. A aprovação do presidente Lula está caindo em todo o país, segundo a avaliação do Governo (Datafolha/Atlas): a avaliação positiva (ótimo/bom) oscila entre 29% e 32%, enquanto a negativa (ruim/péssimo) alcança 40%.
Culpar terceiros por seus fracassos, como fez o presidente comunista com a nobre classe dos professores, pode não ser crime, mas demonstra uma faceta de injustiça social aos educadores. Jamais o povo esquecerá a frase: “Quando se quer dar um golpe se constrói uma narrativa para construir a ideia de que a mentira é verdade”. Corrupção é crime e não narrativa!!!

*Alfredo Andrade é escritor e advogado, autor do livro Página Virada – Uma leitura crítica sobre o fim da era PT

Brasileiros ignoram quem manda nas urnas

*Por Ney Lopes

Judicioso artigo de Paulo Baía, sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ, “abre os olhos” de quem acompanha o processo eleitoral brasileiro. O “recado” para os candidatos e marqueteiros é ter consciência, que não basta apenas “fazer marketing jovem”, e sim também construir uma comunicação política, que funcione para os eleitores mais velhos. O idoso não é o “vovô que precisa de ajuda”, mas o cidadão que sustenta a casa, consome e também decide quem sobe a rampa do Planalto. Hoje, representa cerca de 23% do eleitorado (mais de 36 milhões de brasileiros em 2026).
Dados da Nexus Pesquisa e do TSE revelam uma realidade que muitos preferem ignorar: o Brasil envelheceu, e o poder agora está nas mãos de quem já viveu décadas de crises. É uma força avassaladora e disciplinada, que toma conta do cadastro eleitoral brasileiro.
Invasão Prateada
O salto é assustador para qualquer marqueteiro: em 16 anos, o eleitorado idoso cresceu 74%, chegando a 36,2 milhões de pessoas. Enquanto o país cresceu apenas 15% como um todo, a terceira idade avançou cinco vezes mais rápido. Não é apenas uma mudança estatística; é uma transferência de poder. Quase um em cada quatro votos virá de alguém com mais de 60 anos.
Erro Fatal
A polêmica maior reside na ignorância das campanhas. Tratar o Facebook como “coisa de velho”, ou acreditar que o idoso é um eleitor passivo é um erro analítico crasso. Ao contrário dos jovens, que fragmentam a atenção em vídeos de cinco segundos, o eleitor idoso lê, compara e guarda na memória.
Muitas vezes, o eleitor idoso é tratado pelas campanhas como alguém que está em uma posição de carência extrema e, por isso, trocará seu voto por um benefício imediato, ignorando que, em muitos casos, ele é o principal arrimo de família e também quer segurança para os netos e educação de qualidade.
Entregar remédio, passagens gratuitas, brindes e prometer asilos aos idosos é fácil de usar em um comercial de TV. Reformar o sistema previdenciário, integrar o prontuário para que tenha acompanhamento geriátrico contínuo e criar uma rede de atenção básica à saúde, leva anos e não “gera foto”.
Enquanto a abstenção é o pesadelo das siglas, os eleitores entre 60 e 69 anos registram comparecimento recorde de 85,7%. Eles não faltam. Eles decidem. Em estados como RGS e RJ, quase 30% do eleitorado é idoso.
Silêncio que Decide
Ainda há uma “bomba relógio” de 11 milhões de idosos que não votaram em 2022. Esse contingente, majoritariamente acima dos 70 anos, é uma reserva de poder que ninguém sabe como ativar.
O recado do sociólogo Paulo Baía é um tapa na face do status quo político: o idoso não quer slogan, quer coerência. Ele não se ilude com promessas vazias porque já viu todas elas falharem antes. Em 2026, a democracia brasileira será escrita por quem tem rugas no rosto e memória de sobra.
Quem tiver ouvidos para os mais velhos, que ouça. O resto? Será engolido pelo peso do tempo.

* Ney Lopes – advogado, jornalista ex deputado federal.

Chega de tanta ignorância!

* Por Marli Gonçalves

Não tenho filhos, mas queria ver alguém tentar me proibir de levar, se os tivesse, a qualquer lugar que fosse. Como pode passar uma coisa dessas em primeira votação? Não tem nem de ir ao segundo turno. Tem de ser parado. Já. Assim como devem ser vetadas todas as tantas propostas que nos afrontam e das quais tivemos conhecimento em mais essa semana difícil da pobre política nacional. Lula! Tarcísio! Ricardo Nunes! Respeito é bom.
Não bastasse termos de olhar a cara desses que se acham de direita (e até alguns da “esquerda”) sem ao menos ter lido um livro para saber o que é isso, batendo nossas carteiras aqui, ali, em Brasília. Senão, o que é essa tal flexibilização do fundo partidário? Esses bilhões para gastarem como bem entendem e sem fiscalização? Ampliar o desmatamento? Essa sem conta de barbaridades? Afrontas de uso do dinheiro público, meu, seu, nosso. Com ladrões doando o que nos roubaram até para um filme ridículo.
Comecei pelo tal Rubinho, useiro e vezeiro em meter a mão na cumbuca só para aparecer mais ainda, inclusive sua incompetência, porque é vereador perigoso da cidade onde vivo. Inventou a tal ridícula e milionária Times Square para a Avenida São João, tentou impedir a distribuição de alimentos para a população de rua, perseguiu o padre Júlio Lancellotti, e agora tenta acabar com uma das mais tradicionais festas da cidade, a Parada LGBT+, fora já tentar proibir manifestações como a Marcha da Maconha. E um monte de cordeirinhos atrás, aplaudindo.
Chega. O mundo está despencando em nossas cabeças. Cada dia uma surpresa, mulheres sendo assassinadas, crianças sendo estupradas, revelação de malfeitos da familícia, insegurança pública, a cidade às traças, suja e mal administrada, privatizações literalmente explodindo, organizações criminosas espalhadas se fortalecendo. E eles preocupados em acabar com a pouca alegria que nos resta, o colorido arco-íris que se estende na Avenida Paulista? Incomodadinhos?
Ano eleitoral já é difícil, mas este já se mostra revoltante. Daqui já acompanhava apreensiva a dificuldade dos organizadores da Parada (que será dia 7 de junho, chova chuva, pregos, purpurinas, o que for, ocorrerá!) em sua 30ª Edição, tema 30 Anos de Parada SP — A rua convoca, a urna confirma – perdendo 60% de seus patrocinadores habituais, quando chega essa notícia. Ficou agora bem claro que já estava acontecendo pressão interna.
As ruas são nossas. Cadê a sociedade organizada? Vamos continuar vendo nossas conquistas sendo vilipendiadas, esses tapas em nossas caras? Cidadania é estarmos atentos. Especialmente para as eleições, na pesquisa e escolha de nomes que sejam, no mínimo, decentes. Pelas propagandas de tevê já dá para antever uma onda alta de candidatos que, por favor, não. Prestem atenção nas bobagens que dizem, nas propostas absurdas, às suas caras de pau. São indigestos tentando se tornarem conhecidos justamente por suas lamentáveis sandices.

* Jornalista

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